Teoria da Imagem

Desde os primórdios da história do conhecimento que filósofos e pensadores se debruçam sobre a complexa relação que une imagem e realidade, bem como sobre as respectivas definições. Platão define imagem, em República, como “... primeiramente [as] sombras depois [os] reflexos que se vêem nas águas ou na superfície dos corpos opacos, polidos e brilhantes, e a todas as representações semelhantes”. A retórica medieval define imagem como “aliquid stat pro aliquo” algo que está em lugar de uma outra coisa, apontando já para algo que pode ser fabricado. No entanto, qualquer que sejam as posições teóricas adotadas se entende por imagem algo utilizado para representar uma outra coisa, na sua ausência, existindo em qualquer imagem três dados incontornáveis: 

  • uma seleção da realidade (que em casos-limite pode passar por excluir qualquer representação da realidade – a pintura não-figurativa)
  • uma seleção de elementos representativos, uma estruturação interna que organiza os referidos elementos. Da relação complexa que une imagem e realidade lhe advêm o seu carácter quase mágico que lhe permite simultaneamente representar. 
  • um objeto e sua ausência, e que a leva a ser encarada –sobretudo quando o objeto sobre o qual se debruça é a representação humana – com notáveis reticências pela grande maioria das religiões. Durante longo tempo foi a imagem alvo de grande desconfiança pois, “se é imprópria para produzir argumentação, a imagem é porém notável para intensificar o ethos e o pathos.”

A Classificação das Imagens

A classificação das imagens pode ser feita a partir de diversas perspectivas. 

Imagens naturais e artificiais - A primeira grande divisão estabelece-se precisamente entre imagens naturais – entendendo com tais as que são produzidas sem intervenção humana (os reflexos e sombras de que fala Platão) –e imagens artificiais ou fabricadas – as que exigem essa intervenção para que possam surgir. No diz respeito às imagens fabricadas há cinco grandes classificações:

  1. No que diz respeito à sua materialidade - Estabelece-se uma primeira distinção entre imagens materiais (um quadro, uma fotografia ou uma estátua) e não-materiais (uma imagem mental ou uma projeção holográfica);
  2. No que diz respeito à sua espacialidade - Pode estabelecer-se uma distinção entre imagens bi-dimensionais e imagens tri-dimensionais;
  3. No que concerne à temporalidade das imagens - É necessário proceder a uma separação entre imagens estáticas e imagens móveis;
  4. No que à sua intenção sêmica - Concerne a distinção efetuar-se-á entre imagens representativas e não-representativas;
  5. Sobre às suas condições de produção - A oposição estabelece-se entre imagens produzidas por meios mecânicos e imagens produzidas por meios humanos.

Análise da Imagem Fixa

Os modernos teóricos do estudo da imagem costumam abordar a imagem a partir de dois pontos de vista distintos: 

um a que se pode chamar textual, de tradição essencialmente americana, entende a imagem como um texto, possuidor das mesmas características da produção linguística, tratando então o estudo da imagem de descobrir os seus “constituintes mínimos”, os equivalentes pictóricos dos componentes gramaticais da frase: Típico desta escola, é a abordagem que postula que qualquer imagem pode ser analisada através de um conjunto de treze elementos fundamentais distribuidos por três categorias “gramaticais”: os elementos morfológicos (ponto, linha, plano, textura, cor e forma), os elemntos dinâmnicos (movimento, tensão e ritmo) e os elementos escalares (dimensão, formato escala e proporção), cuja análise detalhada não cabe numa exposição deste tipo; um outro ponte de vista, a que habitualmente se designa como semiótico, mais habitualmente ligado à tradição europeia, considera a imagem enquanto signo, tratando a sua análise de descobrir as suas relações quer com o “objecto” que representa quer com os outros sistemas de signos utilizados em sociedade, radicando aí as razões da sua significação. O método típico desta segunda escola consiste em tentar estabelecer um paralelo entre dois tipos de planoss – por um lado entre o plano de expressão da imagem (o que ela mostra) e o seu plano de contéudo ( o que ela significa), - por outro entre o plano do significante (a realidade exterior a que ela faz referência) e o plano do significado (o conteúdo material da imagem).

Dito de outra forma, existira um paralelismo entre o contéudo físico da imagem e o seu significado e entre esse mesmo contéudo físico e a sua semelhança/diferença com a realidade exterior para que remete. Independentemente do ponto de vista adoptado, a análise de uma imagem deverá ter em vista diversos pontos distintos entre os quais os seguintes – mencionados sem qualquer preocupação de hieraquização – são essenciais:

  1. a sua materialidade e dimensionalidade (bi ou tri-dimensional, natural ou criada, real ou virtual, ...);
  2. o seu processo de elaboração – onde se tem em conta as “ferramentas” utilizadas para elaborar a imagem em questão (humana, mecânica, informática....);
  3. a matéria da expressão – que leva em linha de conta a organização interna da imagem (contrastes, semelhanças, cores, linhas, efeitos de escala, ...);
  4. as chamadas funções icónicas que se entendem como as relações tecidas entre a imagem e o seu objecto de representação, distinguindo-se aqui três tipos básicos de relação – representativa (quando a iamgem se pretende uma cópia, o mais fiel possível, da realidade que representa), simbólica (quando existe uma transferência de uma imagem para um significado abstracto – a pomba da paz, por exemplo) e convencional (quando a relação entre a imagem e aquilo que representa se radica apenas numa convenção social). Numa imagem podem estar simultanemente presentes mais que uma das funções mencionadas, pelo que mais que falar do tipo ou função da imagem é preferível refrirmo-nos à sua função icónica dominante; e) o nível de realidade da imagem, onde se analisa a semelhança/diferença entre a imagem e aquilo que representa. Justo Villefane apresenta uma escala de 11 graus, a que chama graus de iconidade, que descrevem as sucessivas relações de semelhança entre a imagem natural (que estabelece uma relação de identidade consigo prória) e a imagem não-representativa (que não representa, como o seu nome indica qualquer realidade exterior).