Interdiscurso x Intradiscurso

Conceitos desenvolvidos pelo teórico Michel Pêchaux (Seguindo de perto propostas de Gramsci) sobre a dinâmica do discurso na construção dos valores e das relações culturais, sociais e políticas. Os sentidos das coisas podem ser obtidos ao entrecruzar-se a linguagem, manifesta ou não, com a história, o contexto e os acontecimentos da vida social, verificando-se, então, o interdiscurso e, até mesmo, o intradiscurso. Em sua teoria do discurso, Pêcheux pressupõe a existência de transversalidades e conflitos culturais no interior e no exterior dos discursos, que afetam os sujeitos desses discursos e o próprio sentido das palavras. Os conflitos subjetivos que nascem dessas diferenças discursivas são sempre o resultado de conflitos sociais coletivos determinados pela hegemonia política ou pelo poder capitalista enraizado na sociedade. 

  • Intradiscurso - É a forma como a textualidade se deixa comprometer com esse tipo de hegemonia. É o discurso que opera sobre si próprio, que se caracteriza por possuir dois traços distintivos: o pré-construído, traço identificado em qualquer formação discursiva e semelhante a ou funcionando como um preconceito histórico que é do conhecimento geral, e a articulação, aquilo que permite a um sujeito constituir-se como tal em relação àquilo com que se o próprio discurso se constrói. O conceito de ideologia é fundamental para a construção do intradiscurso, espaço privilegiado para o pensamento crítico poder explicar os constrangimentos sociais e políticos que influem na construção da subjetividade. Intradiscurso é uma formação discursiva (oral ou escrita) em que existem diversos conceitos subentendidos na sua própria estrutura semântica que confirmam uma ideologia majorante ou apontam para determinada tendência predominante, atitude ou escola de pensamento. Pelo intradiscurso pode-se buscar a coerência argumentativa do discurso. Ou seja: em quais pontos o discurso se confirma nas diversas nuanças de seus sinônimos ou matizes das suas formas de dizer. Os conceitos no intradiscurso são vistos como fragmentos de um discurso maior, às vezes autoritário, mas convincente para aqueles que o compartilham, pois existe uma lógica semântica que fortalece o discurso que os fundamenta.
  • Interdiscurso - O conceito de interdiscurso destaca-se no processo de desubjetivação da linguagem: o sentido de um texto nunca pode estar declarado a priori pelo seu autor, mas é antes o resultado das relações complexas dos usos da linguagem com as formações discursivas. A distinção mais imediata dos dois conceitos propostos por Pêcheux leva-nos a definir o interdiscurso como o “discurso de um sujeito” e do intradiscurso como a matéria linguística, ideológica, literária, simbólica, etc. pré-existente, uma espécie de imagem já conhecida de uma realização linguística que qualquer sujeito pode reconhecer. Interdiscurso é a constituição de um discurso em relação a outro já existente. É um conjunto de ideias, organizadas por meio do texto, que se apropria, implícita ou explicitamente, de outras configuradas anteriormente.Para o teórico da literatura Gérard Genette, esse conceito dialoga diretamente com a sua ideia de “arquitextualidade”, já que ambos explicitam a noção de que um discurso é tudo aquilo que põe um texto em relação com outros. A hipertextualidade dá sentido ao conceito de Interdiscurso. Ela explica que todo discurso é construído por cima de outro anterior.  O discurso reencontra o outro em todos os caminhos que levam a seu objeto, e um não deixa de entrar em relação viva e intensa com o outro. Para Mikhail Bakhtin, em seu discurso dialógico, “o homem não possui um território interior soberano, ele está inteiramente e sempre em uma fronteira; olhando para o interior de si, olha nos olhos do outro ou através dos olhos do outro”.